terça-feira, 1 de dezembro de 2015

O interfone



            Há algum tempo tenho selecionado o domingo como “o dia para ninguém”. Explico: somente a minha família receberia a minha atenção durante aquelas horas tipicamente preguiçosas. Como não moro mais com os meus pais, separo esse dia para sairmos juntos, visitarmos as praias, restaurantes, feiras, espaços culturais ... nada cansativo, ou que exija muito esforço.
Muito embora esse seja o nosso dia de encontro e passeios, decidi ficar em casa deitado na rede e lendo. A falta de disposição para fazer qualquer outra coisa realizada nos outros dias da semana, como sempre, foi a mesma típica de todos os outros domingos. Para mim, o nome do primeiro dia da semana deveria ser “dominguiça”!
Não sei por qual motivo, mas algum vizinho descobriu que eu estava em casa, a despeito de minha porta e grade principais permanecerem fechadas, televisão desligada. Apenas eu, a rede e um livro de crônicas de Martha Medeiros. No intervalo entre as páginas humoradas, o interfone toca insistentemente. Não seriam os meus pais, muito menos amigos com quem me socializo durante a semana. Tampouco seria a minha orientadora da pós-graduação, pois nem mesmo sonha onda moro (graças a Deus!). Restaram-me as opções dos presentes vizinhos.
Parei e pensei se deveria atender às insistentes chamadas. Decidi não me levantar da rede e parar a leitura. Não por indisposição, mas porque refleti sobre o fato de sempre fazermos tudo com tanta seriedade, sobriedade, perfeição, e estarmos sempre preparados para atender a qualquer chamada (mesmo as que são cobrar!).
Atendemos com tanta ligeireza e presteza aos pedidos de “socorro” de nossas famílias, às súplicas dos amigos, aos prazos de entrega de nossas produções intelectuais, ou de trabalhos, às datas de pagamentos de contas fixas e cartões de crédito. Emprestamos os nossos ouvidos com tanta empatia, selecionamos expressões cabíveis ao coração de quem precisa de direção.
Decidi! Simplesmente decidi fazer o que diz o texto de Clarice Lispector: “Mude! Mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade”.
Não movi meu corpo em direção ao cômodo onde fica o interfone. Deixei que exercesse o papel para o qual foi designado: chamar atenção! E, após mais algumas páginas viradas do livro, analisei que assim devem ser as nossas atitudes para sairmos da rotina da empatia, presteza, ligeireza, disposição, produção e empréstimo dos nossos ouvidos. Apenas respeitar o direito de ficar um pouco na rede com a nossa autocompanhia. E a de um livro.

Ah! O interfone cansou de fazer o anúncio de que alguém me procurava e até hoje não me avisou quem era.  

Imagem do cartunista Benett

8 comentários:

  1. Meu amigo, considero esse momento um luxo, algo que para mim parece um sonho distante... Ah... a solidão faz tão bem ao nosso bem!

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  2. Kkkkk...Bem eu,as vezes!
    Mesmo convivendo com Mãe e Avò,tenho ousadia de fechar a porta do meu quarto e mesmo com berros e batidas,me anulo para qualquer outra reação q n seja...ficar simplesmente deitada!

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  3. Kkkkk...Bem eu,as vezes!
    Mesmo convivendo com Mãe e Avò,tenho ousadia de fechar a porta do meu quarto e mesmo com berros e batidas,me anulo para qualquer outra reação q n seja...ficar simplesmente deitada!

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  4. Bem minha cara esse texto!! Muito bom parabéns.

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  5. Muito bom! Mas a orientadora acessa o google maps rsrsrs!!

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