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sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Uma lixa para os meus pés


De fato, não sou o homem mais experiente no que se refere às relações humanas. Embora saiba de algumas regras básicas para “garantir” a harmonia na convivência (o elogio, a gratidão, a percepção de detalhes e de pequenas coisas etc.), nem sempre me vejo em condições de exercer isso. Minha mente é muito agitada e falho bastante nas atitudes sadias diárias. Quase um crime isso!
Há uns dias, em casa, ainda em Manaus, recebo uma mensagem no celular avisando já estar prestes a chegar do trabalho e me fazer uma surpresa. Uau! Já fiquei ansioso, mas fingindo maturidade sem demonstrar o meu lado curioso.
Esperei a sua chegada pensando o que poderia ser aquele mimo. Consegui manter minhas unhas intactas, pelo fato de não ter o costume de roê-las. Mas garanto que os dedos vieram à boca, algumas vezes.
Chegando do trabalho, me envia uma mensagem do lado de fora de casa dizendo para eu abrir o portão principal e vir para a sala ficar de olhos fechados, para não estragar a surpresa. Assim o fiz!
Ouvi os passos subindo as escadas, o barulho de sacolas, aquela respiração ofegante do cansaço e a voz animada para me surpreender: “Boa noite! Prometa não abrir os olhos”. Como fui um bom menino, ganhei uma capa nova para o meu celular, um perfume, sabonetes e uma lixa para os pés. 

Sim! Isso mesmo! Exatamente isso: uma lixa!
Amei os primeiros itens da surpresa! Fiz aquela festa de animação e gratidão pelos presentes que são usados até hoje com carinho. No entanto, o que mais me surpreendeu foi aquela lixinha para os pés. O presente mais barato, mais simples, talvez até indigno de receber uma crônica para si.
Onde moramos no momento, por mais que façamos uma limpeza diária, há muita poeira. Gosto de andar com os pés descalços dentro de casa, consequentemente, foi acumulando uma mancha debaixo deles por dias, mesmo lavando com cuidado, com sabonete e escova. Assim, ganhei uma lixa para os meus pés! Que presente mais interessante! Na certa, o recado estava dado: eu precisava cuidar mais deles!
Bom! Todo esse ocorrido me surpresou pela delicadeza envolvida e por saber que sou lembrado durante o dia, mesmo pelo fato de estar com os pés sujos. Embora tudo isso, fiquei mais impactado devido à atitude singela e à capacidade que teve de perceber os pequenos detalhes no nosso cotidiano.
Como eu disse, não sou o homem mais experiente no que se refere às relações humanas, mas acredito que, notar alguma minúcia no outro é um sinal afirmando ainda estarmos ali para alguém, ainda sermos presentes, ainda sermos movimento e energia. Ser invisível é como ser submetido a uma cirurgia sem anestesia!            
Há bem poucos dias, iniciamos mais uma contagem cronológica, para a nossa organização social. Agora, talvez seja um bom momento para recapitularmos aquela simplicidade que está se esvaindo em nossas relações, de qualquer tipo que sejam. Perdemos tanto tempo preocupados em comprar a roupa nova ou em fazer planos complexos para seguir. Tantas promessas e determinação para mudanças, mas tanto distanciamento daquilo que realmente importa.  
O presentinho para os meus pés está no banheiro e, todos os dias, ao usá-lo, me lembro com carinho daquela situação. Escrevendo este texto, tive a rápida ideia de “perder” a lixa e pedir outra de presente, para começar tudo de novo! 



terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Deus me defenda da minha "macumba"


            Após um bom tempo, ouvi novamente na rádio a canção “Reza”, composta por Rita Lee e Roberto de Carvalho. De melodia leve, nada deprimente, a letra se torna simpática pelo jogo de verbos e substantivos que formulam a guerra que o “eu” da canção enfrenta ao desejar ser livre do “outro”, mas ao mesmo tempo querer o contrário.
O pedido para que Deus proteja, defenda, salve, ajude, imunize, poupe da inveja, macumba, praga, raiva e do veneno do destinatário desse jogo melódico me causou um questionamento. 
Já parou para pensar quantas vezes somos os corretos, mais experientes e bem resolvidos, em detrimento à pequenez e ao erro de um segundo, ou um terceiro? Se um relacionamento não deu certo, a culpa não é nossa. Uma amizade azeda parte do limão alheio. O louco está lá, não aqui. O espelho só nos serve para pentearmos os nossos cabelos (para quem ainda os tem) e mostrarmos diante daqueles que não se enxergam. Não nos enxergamos, em quase todo tempo.
            Nos períodos, quando comemoramos o final de mais um ciclo, e o início de um novo, a tendência é apostarmos em mudanças. Listas com tópicos das tomadas de decisão por uma dieta e um corpo melhor, por um curso, outro emprego, entrar em um relacionamento, ou optar pela solteirice, ter um encontro espiritual, pintar a casa, adquirir novas roupas, ler mais e ganhar mais dinheiro normalmente estão em destaque.
            Em contrapartida, decidir julgar menos, ser mais atencioso, cuidar mais de alguém, dar mais carinho em vez de presentes, falar palavras que borbulham as boas sensações do ego durante o dia inteiro, ser menos agressivo, perdoar, se doar, olhar com ternura para, seja lá quem for, como uma pessoa que também tem seus sentimentos e emoções dificilmente estão nas nossas listas.
             De quem é a "macumba", então?
             Feliz recomeço para nós! 



              

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

720 horas


           
http://obviousmag.org/devaneios_em_catarse/2015/sobre-nosso-tempo.html

Dezembro começou e faltam somente algumas horas para cantarmos “adeus, ano velho!”. Iniciei o meu dia dizendo “não” para algumas obrigações planejadas e sai para passear na praia, tomar um pouco de sol e água de coco. Não consigo ter este tipo de atividade diária normalmente, mas hoje me dei o direito.
Me dei o direito de pensar que onze meses se foram e sobre o que adquiri de experiências, conhecimento e maturidade. E o melhor disso: autoconhecimento. Quase tive a impressão de que mais um ano me deixaria e eu não aprenderia um pouco mais de mim.
Me dei o direito de olhar para as pessoas que por ali passavam. Algumas sem pressa; já outras...
Me dei o direito de contemplar os coqueiros, a areia, as ondas, os prédios, os barcos, gente que tomava sol e se bronzeava.
Tive o direito de refletir acerca de não poder ir além das minhas próprias forças e energia naturais. Não sou Deus mesmo!
Nem pude ir de encontro às situações que não me cabiam resolver.
Restam mais algumas 720 horas para que eu continue buscando autoconhecimento, tranquilidade, equilíbrio físico, mental e espiritual aceitando a dinâmica da vida, que a mim foi oferecida no ano que se vai agarrado a este último mês.

E restam essas horas como preparação para fazer a diferença no ano que vai nascer. Tudo pode ser novo a partir do hoje. É tudo questão de escolha!